O Simbolismo do Apocalipse de João

De acordo com a natureza de um livro apocalíptico, o Apocalipse de João está repleto de símbolos, figuras e imagens, às vezes fantásticos e à primeira vista absurdos. Todos os acontecimentos apocalípticos relatados no livro são revestidos e escritos em linguagem exclusivamente figurativa.

a) Imagens como figuras de verdades profundas

As imagens que se apresentam neste livro, tão rico em conteúdo por causa destas imagens, se interpretadas de acordo com as regras da hermenêutica bíblica, dão às revelações registradas uma riqueza imensa em consolo e conhecimento dos planos de Deus para com seu povo em peregrinação nesta terra. Seria impossível para a razão e compreensão humanas perscrutar nem mesmo as idéias fundamentais dos mistérios dos planos de Deus, se essas tivessem sido reveladas em linguagem direta e concreta. A razão humana simplesmente não é capaz de atingir o sentido verdadeiro das coisas do além assim como elas realmente são. Por isso, é absolutamente necessário Deus empregar imagens e figuras cujo sentido esteja ao alcance da nossa compreensão. O próprio apóstolo Paulo confessa que ele, num destes raros momentos em que Deus leva um dos seus servos a ver e ouvir coisas do além, do terceiro céu, "ouviu palavras inefáveis, as quais não é lícito ao homem referir (2 Co 12.4).

É impossível, numa pequena introdução, relatar e interpretar todas essas imagens e figuras. Isso será tentado no decurso da interpretação do texto. Convém, porém, que algumas delas sejam classificadas e caracterizadas em poucas palavras.
 

b) Imagens baseadas em elementos e fenômenos da natureza

Ar é símbolo de vida, a região em que a vida reina (1 Ts 4.17); daí o último juízo de endurecimento, a perda da vida eterna, é figurado pelo despejar da sétima taça da ira de Deus pelo ar, de modo que a esfera da vida se torna esfera da morte (Ap 16.17).

Água e mar, em contraposição à terra, significa uma insegurança sinistra. Visto que muitos navios simplesmente desapareceram no mar, este parecia ser um elemento perigoso. O mar como tal, no julgamento final, é considerado de um lado como água estagnada que se torna, em conseqüência do pecado, em lago de fogo, o lugar da última e eterna moradia do diabo e dos que a ele pertencem (Ap 19.20; 20.14; 21.8). Do outro lado aparece como mar de vidro semelhante ao cristal (Ap 4.6), água limpa, sinal da pureza da criação original, sem poluição pelos homens em pecado, o mar de Deus.

Fogo, já na literatura bíblica em geral, significa um processo de refinação e purificação (notável aqui o termo grego para fogo pyr, donde vem o nosso puro, que tem a conotação de fazer puro pelo fogo. Na mineração, o fogo da fornalha separa o metal da pedra (MI 3.3). Também é símbolo da redenção e libertação (Lv 16.27). Como símbolo de transformação o temos em 2 Pe 3. lo: "os elementos se desfarão abrasados" (queimar intensamente pelo fogo). Fogo aparece como símbolo de uma destruição permanente da matéria; no entanto, sem aniquilação em Ap 20.9.

O conjunto de salvação e condenação tem seu clímax na queda da "grande estrela ..., ardendo como tocha", Ap 8.lo. Das cinzas que ficam da destruição da forma de toda a criação mediante o fogo, Deus recriará o novo céu e a nova terra (2 Pe 3.7; 11-13; Ap 21).

Tempestade. Perturbações no elemento da vida, no ar, têm sua profunda significância como o início da grande crise final da criação de Deus caída (Dn 7.2; Lc 21.25ss.). Então a tempestade produz, num lado, trovões e raios (SI 11.6; SI 18; Mt 24.27); noutro lado, surgem saraivadas (granizo) e meteoritos (chuva de pedras) (Ap 16.21).

Nas grandes manifestações de Deus, do Cordeiro e do juízo final, João vê muitas vezes uma combinação de vários fenômenos da natureza: "voz de muitas águas", Ap 1.15;" relâmpagos, vozes e trovões", 8.5; "relâmpagos, vozes, trovões, terremoto e grande saraivada", 11.19; 16.18.

c) Imagens e figuras do reino mineral

Aqui se destacam as pedras preciosas:

Do peitoral do sumo sacerdote do Antigo Testamento (Éx 28.15- 21), representando o povo eleito do Antigo Testamento, é derivada a descrição da nova Jerusalém (Ap 21.19,20) como representante da Igreja do Novo Testamento. Sua muralha está adornada com doze pedras preciosas: jaspe (de cores diversas, preeminentemente vermelho claro); safira (transparente, variando em cores azuis, do azul celeste até o azul escuro) ; calcedônia (sílica microcristalina, transparente ou translúcida); esmeralda (verde transparente); sardônio (variedade de calcedônia, escuro alaranjado ou vermelho pardacento); sárdio ou sardônico (variedade castanha de calcedônia); crisólito (pedra de cor de ouro); berilo (cor de alumínio); topázio (quartzo amarelado); crisópraso (variedade de calcedônia verde claro); jacinto (cor lilás, violeta claro); ametista (cor roxa, variando de roxo-pardo até violeta escuro). As pedras do peitoral do sumo sacerdote foram marcadas pelos nomes das tribos de Israel. As pedras preciosas do Apocalipse trazem os nomes dos doze apóstolos. Elas adornam o fundamento da cidade que significa a igreja de Cristo aqui na terra; são, portanto, a doutrina dos apóstolos, na qual se fundamenta a igreja do Novo Testamento. Essas pedras têm seu reflexo nas doze pérolas que constituem a grande poria, o que significa que elas simbolizam o resultado final das pedras preciosas do fundamento da doutrina dos apóstolos: a entrada na verdadeira igreja de Cristo.

Metais, que são produto dos minerais, há vários que naquela época já foram conhecidos, especialmente: ouro, prata, bronze e ferro. Destaca-se entre eles o ouro, que aparece sempre de novo em combinações diferentes e que significa o grande valor divino, algo especialmente precioso, por exemplo: a "cinta de ouro" Ap 1.13; 15.6) denota a divina prontidão para ação, movimento para frente na batalha; 'tesouro de ouro" (Ap 3.18) significa vida vivida em fé verdadeira; "coroas de ouro" (4.4) designa a vitória dos que com ela são adornados; "incensário de ouro" (8.3), onde as orações dos santos são reunidas para daí subir ao céu em toda a pureza; "sete taças de ouro da ira de Deus" (15.7), a ira de Deus é santa, como é santo seu juízo; "a praça da cidade é de ouro puro'" (21.21), não há mais impureza nessa cidade que simboliza a igreja que aqui na terra ainda está afligida por manchas de pecado, mas lá é completamente pura.

d) Imagens e figuras do reino animal

Entre as figuras, do reino animal, temos com todo o destaque a imagem do Cordeiro. É o Cristo sacrificado mas também vitorioso. A figura tem sua origem na história da libertação do povo de Deus do Egito (Êx 12); recebe proeminência na profecia messiânica de (saías e nos escritos de Pedro e João (Jo 1.29; 1 Pe1.19); e, naturalmente, é figura central na cristologia do Apocalipse (Ap 5.6; 6.16; 7, lo; 12.11; 14.4). É notável aquele quadro em que o Cordeiro e o dragão estão em luta, vencida pelo Cordeiro.

O cavalo, nas revelações de João, simboliza, de uma ou outra maneira, fenômenos terrenos, mandados por Deus no decurso da história da humanidade. Já achamos a figura de Zacarias, o profeta (Zc 1.8; 6.2,3).

A figura é repetida em Ap 6.1ss, onde se acha descrita a visão dos cavaleiros apocalípticos. O sentido da diferença das cores é tratado no simbolismo das cores. A águia tem o mesmo significado dos cavalos: é mensageira de Deus diretamente ligada a seus juízos (Ap 8.13 e repetida várias vezes até o capítulo 12), tanto na providência de Deus para com seu povo como no julgamento dos ímpios, que sobrevem imprevisível e ligeiro. A mesma figura também aparece em várias passagens proféticas no Antigo Testamento.

As rãs (Ap 16.13) têm por elemento natural o pântano e banhado, que no simbolismo significa algo sinistro, mau e imprevisível em seu ambiente obscuro. As rãs expressam a voz desse ambiente, uma voz sinistra. O fato de que são três na passagem mencionada significa que elas querem representar a voz de Deus, quando na realidade são aliadas do diabo.

Os gafanhotos (Ap 9) aparecem como se fossem filhotes do dragão. A palavra tem no original o sentido de multidão. Simbolizam, portanto, uma multidão de demônios que, com grande fúria, atacam os habitantes da terra.

O dragão, monstro lendário, é o símbolo do mal personalizado no diabo. Suas características no livro das revelações de João mostram o diabo em toda a sua fúria. Não é possível interpretar todas as feições, ornamentos e características dos monstros (as bestas) do Apocalipse como os dez chifres sobre as sete cabeças, dez diademas, seus olhos, seus pés, etc. (Ap 13 e 17).

e) Imagens e figuras das relações humanas

Como uma das figuras mais antigas que simbolizam a relação entre Deus e sua igreja aqui na terra, tanto no Antigo como no Novo Testamento, aparece a figura do noivo e sua noiva ou também esposo e esposa. Todas as figuras sobre a relação entre Deus e sua igreja têm seu fundamento no corpo: a igreja é corpo de Cristo; seus membros são ligados à cabeça, que é o próprio Cristo. Seus membros são ligados a esta cabeça mediante a fé, a qual, como o sangue, dá vida ao corpo humano; é o elemento da vida da igreja de Cristo.

A mulher (Ap 12) dá à luz um filho. Cristo nasce no meio da igreja do Antigo Testamento como homem. É a igreja, portanto, que é "vestido como sol", que tem a luz debaixo dos pés e uma "coroa de estrelas na cabeça", demonstrando que toda a criação de Deus, mesmo seus elementos mais destacados, estão a serviço da igreja de Cristo. A mulher sofre "dores de parto" (12.2), o que é indicativo das dores, tribulações e perseguições que a igreja de Deus sofreu nesta época pré-messiânica. A mulher torna-se "meretriz" quando, por sua infidelidade, torna-se instrumento de Satanás, seduzindo os homens a servir às forças do mal. São inúmeras as figuras que, à base de relações, ordenanças e costumes dos homens aqui na terra, servem para ilustrar as relações entre Deus e seu povo, entre Deus e os incrédulos, entre Deus e Satanás, entre os homens e as forças do mal, etc. Serão interpretadas nos textos em que ocorrem no livro.

f) O simbolismo das cores

As cores como símbolos são introduzidas pela síntese de todas as cores no arco-íris. Posto por Deus com sete cores nas nuvens como sinal de sua aliança, originalmente construída por Deus com a humanidade depois do dilúvio (Gn 9.1ss), perdura na aliança do Novo Testamento, feita por Deus através de Cristo. Individualmente, podemos constatar os seguintes significados das cores:

Branco é preeminentemente a cor da santidade, pureza, inocência e justiça (Ap 19.11-14); mas também a cor da perfeição e da vitória de Cristo (cabelos brancos, o cavalo branco, o trono branco daquele que tem a semelhança ao "Filho do homem", a pedra branca, as vestiduras brancas, etc.) (Ap 1.14; 2.17; 6.1l). Aplica-se também ao estado do cristão redimido e santificado pela fé: vestiduras brancas pois lavadas pelo sangue de Cristo.

Preto denota (Ap 6.5) fome, agonia, luto e sofrimentos em geral. Vermelho aparece em várias combinações. Como cor de sangue. Como cor de sangue no sentido concreto, significa guerra (cor de fogo, Ap 6.4, assassínio 12.3); quando usado em forma passiva, geralmente denota o sacrifício de Cristo e a redenção pelo sangue de Cristo (escarlate: Ap 7.14). Púrpura, vermelho escuro até roxo, é a cor da dignidade real, régia (Dn 5.29; Mt 27.28; Ap 17.3 - aqui, no sentido de dignidade falsa, hipócrita, mentirosa).

Amarelo divide-se (como o vermelho) em dois símbolos distintos: como amarelo pálido (cor de cadáver), significa morte (Ap 6.8); amarelo brilhante (como no ouro) simboliza vida intensa, radiante (Ap 1.15). Verde (a cor dominante do arco-íris) é sinal da esperança na promessa divina cumprida (Ap 4.3).

g) Nomes simbólicos no Apocalipse de João

Com exceção dos nomes das igrejas endereçadas, do lugar da composição do livro-carta e do autor, todos os nomes usados no Apocalipse de João são simbólicos. Entre eles, destaque deve ser dado aos seguintes:

Jerusalém, a noiva - símbolo da igreja celestial, na qual os eleitos de Deus moram junto com seu Deus: cidade que não precisa mais de um templo, pois Deus é tudo em todos (Ap 21.9ss).

Babilônia e Egito, dois nomes que significam opressão. Dum lado, idolatria e luxúria e, doutro, o cúmulo da inimizade contra Deus e a opressão do seu povo aqui na terra (Ap 14.8; 16.19; 17.5; 18.2, l0; 11.8).

Sodoma significa o cúmulo da luxúria, de vida pregressa e pervertida; sede das meretrizes, do sexualismo, das tentações mundanas e da adoração da beleza falsa que por dentro é podre (Ap 11.8).

Jezabel tem seu antecedente na rainha ímpia, mulher do rei Acabe, perseguidora dos profetas e servos de Deus. Ao mesmo tempo é símbolo da prostituição espiritual e física (Ap 2.20).

Gogue e Magogue são nomes simbólicos para a combinação total das forças inimigas de Jesus e de seus seguidores, que no fim se reúnem para uma última batalha que não começa, porque nesse momento começa o Juízo Final, em que são destruídos todos os inimigos junto com o domínio satânico na terra. Seu antecedente se acha em Ez 38 (Ap 20.8).

h) A numerologia apocalíptica nas Revelações de João

Nenhum número que aparece no Apocalipse é meramente número real e matemático. Cada número dado tem ao menos também um sentido simbólico. A grande maioria é simplesmente simbólica. Para a interpretação dos números simbólicos existem regras que devem ser observadas a fim de não tornar a interpretação absurda. Qualquer duplicação ou multiplicação do mesmo número sempre significa intensificação do sentido simbólico original. A numerologia do Apocalipse tem por base os seguintes dados: O número três é o número de Deus. Repetição tríplice de uma invocação ou exclamação indica sempre o Deus Triúno: Santo, santo, santo. O número quatro é o número simbólico da criação de Deus (ou também de todas as criaturas ou homens): quatro "seres viventes" diante do trono do Cordeiro; quatro anjos nos quatro cantos da terra, tendo na mão quatro ventos; quatro anjos encarregados de perturbar o mundo; uma voz dos quatro lados do altar; as nações nas quatro partes do mundo, etc.

O número sete é a combinação do número de Deus com o número da criação (homens). Deus com os homens (EMANUEL): Deus (três) com os homens (quatro). É, portanto, a ligação de Deus com a humanidade perdida: o número do povo de Deus aqui na terra, a Igreja de Cristo. É assim o número da totalidade das relações entre Deus e os homens. De uma ou de outra maneira reflete a existência, a obra, as lutas e as vitórias da Igreja no mundo. O número sete é o mais freqüente e mais importante. Temos entre outros: sete igrejas, sete candeeiros, sete anjos das igrejas, sete estrelas, sete lâmpadas, sete espíritos, sete trombetas, sete flagelos, sete trovões, sete chifres do Cordeiro, o monstro (permitido por Deus a agir) com sete cabeças, sete taças da ira de Deus.

Para refletir: os sete dias da criação, sendo o sétimo dia o dia de Deus, que ainda não terminou; a antiga aliança teve sua primeira expressão notável na colocação do arco-íris com sete cores.

Notem: enquanto 777 é a triplicação do número 7, que é a expressão da presença de Deus com sua criatura, 666 (Ap 13.18), a triplicação do número 6, no qual falta a ligação de Deus com sua criatura, é a expressão máxima da falta de Deus: é o cúmulo do mal. O número dez é o número da perfeição na criação de Deus: a perfeição na qual idade e a totalidade na quantidade. Notem: o número 1. 000 é a triplicação do número l0 (10x10x10 é 1.000). Mil anos (milênio) são, portanto, a totalidade dos anos previstos por Deus. É aquela época em que o diabo acorrentado não pode impedir que o evangelho seja pregado no mundo inteiro (o tempo da graça, Ap 20.1-4,6,7).

O número doze é o número dos eleitos de Deus, o segundo dos mais importantes números simbólicos do Apocalipse: doze tribos no povo de Deus da Antiga Aliança. Apesar de Jacó ter tido outros filhos e filhas, Deus constituiu o número doze como símbolo do seu povo eleito. Doze apóstolos como representantes do povo de Deus do Novo Testamento. Vinte e quatro anciãos ao redor do trono do Cordeiro, representando os eleitos das duas Alianças de Deus. Doze estrelas como coroa na cabeça da mulher que significa a igreja eleita de Deus.

A nova Jerusalém, que é a cidade de Deus, a igreja de Cristo na eternidade, simbolicamente descrita em Ap 21.9ss, tem uma constante repetição do número doze: doze portas, doze anjos, doze fundamentos, etc. A medida completa da cidade, doze mil estádios (um estádio tem 41,25m), é evidentemente uma medida simbólica: o número dos eleitos de Deus (12) multiplicado com a triplicação do número da totalidade (10x10x10 é 1.000) é a afirmação absoluta de que lá nenhum dos eleitos faltará.

A totalidade dos eleitos de Deus no céu é simbolicamente expressa pela multiplicação do número dos eleitos (12xl 2 é 144) com a triplicação do número da totalidade (10x10x10 é 1.000), portanto 144.000. Em contraposição à exatidão do número dos eleitos está o número incontado e incontável dos que são inimigos de Deus e de sua igreja, cujo número é segundo Ap 20.8, "como a areia do mar'.

 
 

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